ADEUS PORTULÂNDIA


Adeus, Portulândia!

Foi bom cuidar dos teus idosos, limpar o teu chão, lavar a tua louça e deixar-te mais branco como o fumo. É irónico, pois a brancura que deixo não é da pele, mas do brilho do esforço, da dignidade e do suor que não escolhe cor. Foi bom cuidar-te, mesmo quando o cuidado era invisível, ou porque a tua preocupação era me mandar voltar para a minha terra. 

Achas que não deveria me sentir ofendida, sempre que me chamavas de preta, afinal sou preta.  O problema não é o ser preta é o peso que tu deste a essa cor.  

Hoje parto. Levo-te na mala como um país que não é meu, mas que também não me foi estranho. Portulândia, foi por várias vezes minha madrasta, acolheu-me quando fugia das misérias da minha casa, mas infelizmente, apesar de teres me acolhido nunca me abraçaste e nunca quis perceber o  por que aguentei todos esses anos, mesmo meu trabalho sendo invisível, mesmo quando me lembravas todos os dias que a terra não era minha. 

Permitiste-me viver, mas não me deixaste pertencer. “Fique”, disseste-me uma vez de coração aberto, “não vá para  África, lá está muito pior.” E eu com um nó na garganta, ouvi em ti a voz que raramente escuto, por um instante quis desarrumar as malas, mas lembrei que és bipolar, as vezes me tratas bem e noutras me maltratas. Mas desta vez estavas a ser empático .

Noutro dia quando te segredei que pensava em ir para a minha terra disseste-me que a minha cor era linda, que o respeito é o que mais importa. E naquele instante, por um breve segundo, senti que talvez ainda haja lugar para humanidade entre fronteiras.

Mas a vida do emigrante é feita de despedidas disfarçadas de regressos. Muitos não voltam por alegria voltam por necessidade, por cansaço, por perceberem que o país do outro é sempre casa arrendada. Por mais limpo que deixes o chão, um dia o dono vai precisar do terreno. E então, com as mãos ainda molhadas de tanto lavar o prato dos outros, voltas para casa com a dignidade intacta, mas com o corpo cansado.

Deves te perguntares por que vou embora?

Às vezes  dizes que a culpa do teu mal-estar é minha. Que ironia! Como se a cor da pele tivesse culpa da pobreza, da crise, da falta de amor. 

Quando estás de bom humor costumas me dizer que não sou eu que te distruo. Que sempre vivi aqui, ajudei-te a te cuidares e a  crescer. 

Dias bons e  e maus há em todos os lugares. Palavras como estas curam.

Porque a verdade é que, entre o preconceito e a saudade, entre o racismo e o reconhecimento, há um espaço que se chama respeito. E é esse espaço que tantos insistem em ignorar.

Parto, mas não com rancor.

Levo comigo o carinho dos  dias que soubeste ver além da cor. Levo também as feridas dos dias que me olhaste sem me reconhecer.

Portulândia, deixo-te mais limpo não apenas na tua casa, mas talvez um pouco mais limpo na tua consciência.

Adeus, Porulândia.

Foi bom cuidar-te.

Agora é tempo de cuidar de mim.

Texto: Nunes Cristóvão 

Inspirado na legenda da Cleria Cleria

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