DEPOIS DA CHUVA VEM O SOL

Sou um jovem comum, como qualquer outro. Recém-formado, entre os três melhores do curso.

Hoje, o meu trabalho resume-se em vender plásticos e distribuir meus currículos de porta em porta.

O INAM tinha avisado que haveria chuva forte e muito vento. As pessoas deveriam permanecer em casa porque sair seria perigoso.

Perigoso para mim? Nada de novo. Todos os dias já eram perigosos. Mas eu tinha prometido à minha mãe que não voltaria para casa sem comida. Ela acabava de passar por um acidente e perdeu as duas pernas já não podia ir à machamba.


Faltavam quinze minutos para as quinze. Eu ainda não tinha vendido um único plástico. Os meus currículos estavam molhados.

Procurei me esconder debaixo de um cajueiro, ao lado do hospital, tentando escapar da chuva e da ventania. A fome apertava cada vez mais e doutro  lado a minha mãe também precisava comer.

Então, decidi entrar no hospital e doar sangue, com a esperança de receber aquele pequeno lanche que costumam oferecer. E, de facto, recebi.

Enquanto eu doava sangue, uma ambulância chegou às pressas, tinha acabado de socorrer alguém que teve acidente, o seu carro tinha acabado de bater num tronco de árvore caído na estrada. O homem estava com uma hemorragia grave. Usaram o meu sangue.

Peguei o meu Take away e o cartão de sumo, para casa e dividi com a minha mãe.

Dois dias depois, as redes sociais começaram a contar uma história. Falavam de um desconhecido que, sem saber, tinha ajudado a salvar um homem em estado crítico.

O que ninguém sabia era que esse desconhecido era eu.

No início, achei graça. Depois, comecei a sentir medo. As mensagens multiplicavam-se. Diziam que o homem salvo procurava o doador, em todo o lado. Que queria conhecê-lo, agradecer-lhe pessoalmente.



Mas eu, silencioso, continuava o mesmo vendedor de plásticos, sem saber se devia aparecer ou esconder-me, até porque não tinha contado para minha mãe que aquela refeição tinha me custado uma bolsa de sangue.


Fui até ao seu escritório. Fez-me algumas perguntas e como gesto de gratidão ofereceu-me um emprego, na minha área de formação, naquela vaga que eu tanto merecia, mas que ninguém me dava.


Literalmente, depois da chuva, veio o sol para a minha vida.


Nunes Cristóvão

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