As pré-inscrições para ingressar nas Universidades da Pérola do Índico já começaram; por outro lado, nas redes sociais chovem publicações sobre graduações. Mas eu… eu só queria estar num dos grupos do WhatsApp de uma dessas universidades que não têm mensalidades. Pelo menos isso, nem que o nome do grupo fosse “Admiradores da Universidade X”.
Desde cedo cresci com esse desejo preso no peito como quem guarda uma pequena chama enquanto espera uma vaga de emprego em Moçambique. Por várias vezes tentei ingressar numa universidade, mas as condições financeiras sempre mostravam um muro mais alto que a minha própria vontade.
Consegui terminar o nível médio vendendo plástico na baixa da cidade. Aquele era um trabalho que não escolhi, mas foi o único trabalho que me escolheu. Acordava antes do sol, com o corpo cansado e a alma angustiada, e caminhava da Brigada até baixa para gwevar os plásticos cedo. Quem cedo madruga, Deus ajuda, sim, Ele ajudava e ainda me dava forças para disputar cada cliente com outros jovens que, como eu, carregavam sonhos e acreditavam que venceriam, embora não seria fácil.
À noite, o corpo me pedia descanso, mas o meu cérebro recusava. Parecia não saber desligar. Enquanto dormia, revivia o mercado, os passos apressados, os gritos dos vendedores, as mãos estendidas dos clientes. Por isso, todas as noites, sem perceber, gritava no meio do sono:
“A Ma plástico haleno!”
O irmão mais velho, com quem partilhávamos o quarto, reclamava sempre.
Continuei preso no sonho por isso continuo na luta, mesmo quando durmo me acompanha o medo de perder a venda do dia seguinte.
E agora, olhando o ano vinte e vinte cinco a morrer devagar, eu sinto que também estou a morrer com ele, cai-me das minhas mãos um pedaço da esperança. Mas mesmo assim, lembro-me que ninguém me falou antes que seria fácil.
Crescer dói, mas talvez aventurar… aventurar seja o que ainda me mantém de pé.


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