Escrevo-te a ti que sofres de depressão e ansiedade.
Sei que o mundo pode ser cruel. Sei que muitos acham que és fraco e que outros dizem que é frescura.
De longe, por fora, parece estar tudo bem. Mas por dentro há uma luta forte, que nem é de Hot Blaze.
Entendo que a tristeza se tornou a tua companheira favorita e que te roubou o interesse e o prazer naquele trabalho, naquele jogo, naquele hobby e, às vezes, até na própria vida. Mas não te enganes, tu continuas útil. Apesar da crueldade do mundo, há pessoas ao teu redor que te amam e que precisam de ti.
Sei que fazes um grande esforço para sair do quarto, para enfrentar o encontro com outras pessoas. Se dependesse apenas do que sentes, talvez nem irias à escola ou ao trabalho.
Muitos não entendem por que acordas cansado, mesmo depois de conseguires dormir. Não entendem esse cansaço que não é só física, mas emocional.
Se por algum esforço consegues levantar da cama, começas outra luta ao imaginar tudo o que pode dar errado, a conversa que pode falhar, a crítica que pode surgir, o erro que podes cometer.
O teu coração acelera supostamente sem motivo. O teu peito aperta não por ter visto aquela pessoa que te cria borboletas no estômago, mas por medo, sei lá.
Se vences essa batalha e chegas à escola ou ao trabalho, a concentração abandona-te. Os teus pensamentos correm tão rápido que nem consegues acompanhá-los. Ainda assim, esforças-te e cumpres as tuas responsabilidades.
E, à noite, quando finalmente tentas descansar, a tua mente continua barulhenta, revives o dia, antecipas o amanhã, questionas decisões simples. O corpo quer descansar, mas a tua cabeça não permite.
Eu e algumas pessoas sabemos que não é fraqueza. Não é exagero. É um estado que poucas vezes não consegues controlar.
Mas também precisas de saber que:
1- A tua dor é real, mas ela não é a tua identidade. Tu não és a depressão nem és a ansiedade. Tu és uma pessoa que está a atravessar uma fase difícil, e fases difíceis passam.
2- Não transformes o sofrimento por depressão e ansiedade na sua desculpa favorita para tudo. Nem todo erro teu é culpa da depressão. Nem todo fracasso é fruto da ansiedade.
3-Às vezes erras por falta de preparação. Às vezes tomas decisões precipitadas ou influenciadas pelos terceiros. Às vezes precisas amadurecer e reconhecer que isso não te diminui, fortalece-te.
4- Não te vitimizes. Sofrer não te dá licença para ferir os outros, abandonar responsabilidades ou repetir comportamentos que sabes que te prejudicam. A dor explica muita coisa, mas não justifica tudo.
5-Não uses a tua doença como bandeira ou espectáculo nas redes sociais. Dor não é prémio. Transtorno não é identidade estética. Quem realmente luta preocupa-se mais em curar-se do que em exibir as próprias feridas.
6-Assuma a tua parte. Se erraste, reconhece. Se magoaste alguém, pede perdão. Se fracassaste, aprende. Crescer também faz parte do processo de cura.
7-Procura ajuda profissional sem vergonha. Falar com um psicólogo ou psiquiatra não te faz fraco, mas faz-te responsável. Se precisares de tratamento, aceita-o como forma de te cuidares.
8-Limita comparações, sobretudo pelo que vês nas redes sociais. Nem tudo o que parece é. Afasta-te do que te intoxica. Nem tudo se resolve apenas com força de vontade, mas nada melhora sem alguma acção tua.
E acima de tudo lembra-te:
O mundo pode ser duro, mas tu não precisas ser duro contigo. Tu és responsável pelas tuas escolhas. Tu és responsável por não transformar dor em tua identidade.
Cair pode acontecer. Permanecer caído é decisão. Sentir não é fraqueza. Ficar parado para sempre não é destino até porque não acredito em destino.
Há vida depois da crise. Há propósito depois do vazio. Há força dentro de ti mesmo quando não a sentes.
Levanta-te quantas vezes forem necessárias. Não para provar algo aos outros. Mas para te lembrares que ainda estás aqui e que ainda podes recomeçar.
Atenciosamente,
Alguém que acredita que tu és maior do que aquilo que te dói.


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