Escrevo a ti, pai. A ti, mãe. A ti, irmão mais velho.
E, sobretudo, a ti, tio e tia, especialistas no xitique de família e perguntas constrangedoras.
Escrevo também para ti, amigo e amiga. Sim, tu também pressionas.
E,finalmente, escrevo para ti que lês. Sim, tu que és sociedade. Tu que crias padrões e depois me acusas de fracassar por não caber neles.
Tudo começa em casa. Nas festas de xitique em família, no meio de umas bem geladas, começam as tias:
— Já terminaste o curso?
— Quando é que nos apresentas o(a) cunhado(a)?
— Por que não namoras?
— Por que não fazes filhos? Jovens da tua idade já têm dois!
— Por que não compras um terreno? Teu primo fulano já construiu!
Quando penso que lá fora posso respirar, descubro que a rua também tem microfones. Os amigos perguntam:
— Por que não estudas mais?
— Afinal, quando é que terminas de estudar?
— Quando vais ser mãe? A idade não está a passar?
— Por onde tens andado?
— Já trabalhas?
— E esse(a) namorado(a)?
— Ainda vives com os teus pais?
— Não nos apresentas o(a) cunhado(a)? A idade não está a bazar?
— Por que não compras um carro?
— Por que não bebes?
Estas perguntas recordam-me da conversa que tive com o diabo. Falei-lhe que eu entendia essa preocupação toda, mas acredito que cada um tem seu próprio caminho. Não há necessidade de nos comparar com os outros, porque cada jornada é única. As conquistas que realmente importam não são apenas as materiais ou as que todo mundo vê, porque o que os outros pensam não define o valor de alguém.
Hoje não escrevo mais para o diabo, mas para ti ,pai, mãe, tio(a), amigo(a). De repente, a minha vida vira corrida.
Mas ninguém me perguntou se eu queria casar, ter filhos. Alguns carregam batalhas que não aparecem nas fotografias do WhatsApp. Cada um constrói o seu caminho com as ferramentas que tem, não com as que a comparação impõe.
Nem toda indiferença é atraso. Nem toda espera é fracasso. Nem toda solteirice é solidão.
Nem todo “ainda vivo com os meus pais” é incapacidade.
Às vezes é estratégia. Às vezes é cuidado. Às vezes é simplesmente o que é possível agora.
Por isso, termino apelando:
1. Respeitem o tempo de cada um. Nem todos têm as mesmas possibilidades, muito menos as mesmas capacidades.
2. Troquem cobrança por escuta. Perguntem menos “quando?” e mais “como estás?” . E se o outro responder que está tudo bem, não insista em bisbilhotar, não está interessado em partilhar.
3. Celebrem processos, não só conquistas. Nem toda vitória tem diploma, aliança, carro e casa. Até porque pessoas que pressionam nem elas possuem essas coisas.
4. Evitem comparações. A vida não é campeonato entre primos e colegas.
5. Não transformem curiosidade em pressão. Nem toda pergunta precisa ser feita. Até porque não muda nada nas vossas vidas.
6. Incentivem sem impor. Apoiar é diferente de empurrar.
7. Aprendam a respeitar escolhas diferentes das vossas. Nem todos querem o mesmo destino, casar, ter filhos, blablablá, e está tudo bem.
Se quiserem ajudar, perguntem: “Como posso apoiar-te?” Às vezes, tudo o que precisamos não é de um plano de vida traçado por outros, mas de espaço para escrever o nosso próprio.
A pressão social não motiva, mas sufoca. Não constrói, mas desgasta. Não ajuda, mas apressa decisões erradas.
Atenciosamente,
Alguém que só quer viver no seu tempo.


1 Comentários
Realmente sou uma das pessoas que sofro com a pressão social torna mais pior quando falo da minha idade que estou a demorar tinha que ter um Marido e filhos e as vezes a pressão social nos faz nós nos questionar de nós mesmas será que existe um demónio ou marido da noite e eles/a se esquecem que cada um tem seu caminho e tudo acontece no tempo de Deus!
ResponderEliminarNb: por isso que agora existe várias separações mães solteiras e com filhos e esquece que foi a través das decisões erradas 🥰 Muito obrigada Nunes Cristóvão por trazer trechos que acontece dia a pós dia(realidade) 🥰