CARTA AOS LEITORES


Caro leitor,

Já compartilhamos muitas conversas sobre vários assuntos, umas, eu sentado na sombra da mafurreira, olhando para a tela, e tu do outro lado dela lendo; outras, eu sentado numa cadeira gelada, escrevendo num papel que mais tarde uso para acender carvão no meu fogão, e tu recebes, como produto final, um livro com cheiro, peso e forma.
Nalgumas vezes, quando o vento sopra a nosso favor, ganhas um autógrafo e eu ganho uma foto contigo, ambos sorrindo para as câmeras, felizes, mas também com muita incerteza se irás gostar do livro ou não.

Então escrevo-te esta carta para te recordar desses momentos.
Não posso negar: eu e muitos outros escrevemos porque tu existes. Se não existisses, o que costumo ouvir dos outros que escrevem, acredita, eu não escreveria mais.
Quando me falam que o que escrevo é lixo, tu vens dizer-me que te toquei o coração e, de alguma forma, mudei a tua vida, salvei o teu relacionamento com os teus.

Quando me falam que não vale a pena escrever, que isso não me levará a lugar algum, tu perguntas quando sai o meu próximo livro.
Quando me recordam que em Moçambique não se pode viver do livro, tu perguntas: “Peço teu número da conta. Quero pagar o teu último livro.”
Quando me dizem que não posso publicar porque ninguém me conhece, tu pedes a versão física do meu último eBook.

E, finalmente, quando me dizem que não posso publicar porque não faço parte deste ou daquele grupo, tu apareces no meu lançamento e ainda compras o meu livro.
Amigo(a) leitor(a), eu existo porque tu existes.
Apesar de termos partilhado bons momentos, algumas vezes, que podem até ser poucas deixaste-me cabisbaixo.
Sou grato por existires, mas também gostaria de te recordar algumas coisinhas:
1 – Todo escritor ama o teu apoio. Mas, quando anunciar o lançamento de um livro, não o iludas. Fica na expectativa e, no final…, então honra a tua palavra.

2 – Não brinques com os sentimentos dos escritores. É encorajador ouvir alguém que leu o seu livro dizer que gostou; mas incentivar uma continuação e depois não aderir não é tão elegante.

3 – Elogiar até certo ponto é combustível para o escritor continuar a escrever, mas escovar não é tão chique assim. Uma dose de crítica construtiva é sempre bem-vinda.

4 – Fingir ter lido algum livro só porque estás a bater papo com o autor é muito feio. Lá no fundo, o escritor percebe que não passa de uma mentira só não diz por educação.

5 – Brincar o “Jogo 35” com o autor não é empático. Sempre pedes o título que está fora das prateleiras.

6 – Se prometes divulgar, divulga mesmo. Um simples partilhar nas redes sociais pode abrir portas que o escritor sozinho não consegue abrir.
7 – Valoriza o livro original. A fotocópia e o PDF partilhado sem autorização não parecem graves, mas ferem silenciosamente quem vive da escrita.

8 – Comparece aos lançamentos quando disseres que vais. A cadeira vazia pesa mais do que imaginas.

9 – Quando leres um livro e ele te tocar, escreve ao autor. Uma mensagem sincera sustenta meses de dúvidas e inseguranças.

10 – Entende que por trás de cada livro há noites mal dormidas, renúncias, contas por pagar e sonhos que insistem em não morrer.

Apesar desses pontinhos que acredito não te fazem outra pessoa, mas te mancham um pouco, eu te amo.
E os meus escritos agradecem por os manteres vivos.
Atenciosamente,
Nunes Cristóvão

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