CARTA AOS PASSAGEIROS DE CHAPA



Caro passageiro de chapa em Moz,
Escrevo-te esta carta dentro de um chapa. Sim, apertado. Sim, a tentar equilibrar-me entre um joelho desconhecido e um plástico molhado e suspeito.
Amigo passageiro, concorda comigo que ninguém acorda de manhã e diz: “Hoje vou andar de chapa porque gosto”? O motorista conduz porque há filhos para alimentar. O cobrador grita porque há contas para pagar. Eu e tu subimos porque precisamos chegar ao trabalho, à escola, à vida, e ainda não temos viatura própria nem motorista particular, e quem sabe beijaremos a terra sem nem sequer ter comprado uma bicicleta.
Dom Francisco Chimoio costuma dizer que o cemitério é o “campo de igualdade”, eu digo que o chapa é, também, esse campo, em que todos somos iguais, todos apertados, todos a respirar o mesmo ar. E já que partilhamos tanto, eu escrevo-te para pedir para que partilhemos também um pouco de civilização.
Então, permite-me recordar-te:
1- Saudação é o básico. Ao entrar, limite-se a saudar. O “bom dia” é elegante. A biografia completa da sua vida sentimental às 5h da manhã já é terrorismo social. Nem todos querem debater política, futebol, religião ou o fim do mundo antes de matabichar.

2- A Justiça começa contigo. Evite pedir desconto se já sabes o preço do chapa. Clamas pela justiça social nas redes sociais, mas tentas negociar cinquenta meticais com quem também luta para sobreviver. Se queres revolucionar o sistema, comece por pagar o justo ao cobrador do chapa e àquela tia daquela esquina.

3- Higiene não é luxo. Tudo bem que estás a phandar, mas subir o chapa suado, com roupa de estofo, acontece; a vida é dura. Muito, mas não acho que devas transformar o passageiro ao lado numa extensão da tua toalha pessoal já é falta de empatia.

4 - Tenhas respeito com os outros passageiros. E, quando alguém reclamar sobre algo, como lhe apertar, peça desculpa e não diga: “Se não quer apertos, compre carro!” Porque, se essa fosse a solução, talvez tu devesses ser o exemplo.
5- O chapa não é a Magia de Amor de Gabriel Jr. Se alguém sorriu para ti, isso não significa que está interessado/a.
6- Pessoa magra não é um espaço vazio. Os magros não são almofadas públicas. Ser magro não significa caber no sovaco colectivo. Também precisam de espaço.
7- As pessoas avantajadas não precisam ser olhadas com desdém; não escolheram.
8- Se começar a contar uma história, termine antes de chegar à próxima paragem; algumas vezes o outro passa a sua paragem para saber do desfecho.
No fim, caro passageiro, talvez o chapa seja mais do que transporte.
Talvez seja laboratório social.
E se conseguirmos ser civilizados aqui, apertados, cansados, atrasados, talvez ainda haja esperança de um dia em que desceremos do chapa sem previsão de voltar a subi-lo.
Atenciosamente,
Nunes Cristóvão

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