“Procura-se… fulano que concorreu para a vaga de… há nove anos…”
Passaram-se nove anos. Eu acabava de terminar a faculdade, paga com o dinheiro dos plásticos que vendia na baixa da cidade e pequenos biscates que minha mãe ia fazendo.
A minha mãe soube de um concurso público para ingressar no Aparelho de Estado, era uma oportunidade única para um recém-formado.
Hoje, nove anos depois de ter concorrido a uma vaga de emprego, fiquei em vigésima sexta posição, como suplente.
Não era o único. A Juliana, filha da tia Miséria, nossa vizinha, tinha ficado em trigésima quarta posição.
Tentei outros concursos. Bati porta a porta em todas as empresas da baixa, mas sem sucesso. Outros jovens da minha idade, que não tinham estudado, debochavam: “Se mesmo você que estudou está connosco a chutar latas, por que devo estudar?”
É certo que havia uma grande diferença entre mim e eles, mas, depois de várias tentativas falhadas e de uma série de “nãos”, acabava por lhes dar razão.
Mantive a esperança no primeiro, no segundo e no terceiro ano como suplente. Acordava todos os dias com ansiedade. Em alguns dias, era decepcionante ver colegas recém-formados, em relação a mim, serem integrados, enquanto eu permanecia no mesmo lugar, com o diploma nas mãos e, ao mesmo tempo, a sensação de que ele não abria portas.
A cada dia, os meus sonhos e os de outros jovens com a mesma sorte iam morrendo. Uns, como eu, acabaram por se refugiar nas machambas da África do Sul. As mulheres com menos sorte acabaram por conhecer muitas camas para sobreviver. Mas a mais triste é a história da Juliana, com tantos anos de busca sem sucesso, acabou por tirar a própria vida. Talvez porque já não houvesse espaço para pedir ajuda.
E hoje vejo aquela lista de repescagem dos candidatos, nove anos depois.
Será que os Recursos Humanos sabem quantas tentativas de contacto falharam ao longo dos anos? Quantas vezes essas pessoas procuraram o sistema e não foram ouvidas? Quantas oportunidades foram adiadas até se tornarem impossíveis?
É urgente humanizar os processos. É urgente acompanhar, comunicar e valorizar aqueles que esperam. Porque ninguém deveria passar uma década inteira à espera de começar a viver a sua própria profissão.
Se alguém conhece alguém nessa situação, que leve esta mensagem até ele.
Mas que leve também algo mais: a certeza de que a sua história importa e de que o seu tempo de espera não deve ser esquecido.
Embora possa ser que muitos já estejam noutro lado, mais perto de Deus, depois de partirem por desgosto.


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