Querido Cabo Verde,
Escrevo-te
esta carta num café, na Livraria Nhô Eugénio, que tem cheiro de livros e, ao
meu redor, um ambiente tranquilo para pensar na vida.
A
minha estadia já se esgotou, a Pérola do Índico me chama. Vim para cá com uma
mala cheia de sonhos e projectos, dentre vários, o principal era te conhecer e
te fazer conhecer um pouquinho a pátria amada. Conhecer a tua cultura foi o
maior ganho. A tua cultura, a tua gastronomia, é o teu cartão de visita.
É
inevitável passar por aqui e não provar uma boa cachupa, cuscuz, um bom bife de
atum, um frango assado com tempero cabo-verdiano, arroz de marisco
cabo-verdiano, moreia e… etc.
Antes
de mais, gostaria de avisar-te que esta carta é fruto de 30 dias passados nas
tuas lindas terras, pesquisando em museus, locais históricos, bibliotecas e
universidades, sem deixar de fora as conversas que tive com teus filhos por
onde passei e, claro, com a minha própria observação para emitir a minha
opinião.
Então,
é óbvio que se trata de uma visão limitada da realidade. Por exemplo, se eu não
tivesse saído da capital, voltaria com uma imagem única do tipo de transporte
local. Mas vi que alguns dos desafios que estou acostumado a viver na Pérola do
Índico também, cá, fazem parte.
Pode
acontecer que não concordes com alguns pontos. Como presenciei num dos eventos
de debates nestes dias que estive por aqui, uma estrangeira, residente nestas
terras, que prefiro não mencionar a nacionalidade, deu o seu parecer sobre um
facto social cabo-verdiano.
Alguns
cabo-verdianos caíram por cima dela e a aconselharam a olhar para as
estatísticas. A coitada insistiu que se tratava de uma observação dos factos.
Não sei quem tinha razão. Então, neste caso, espero que teus filhos não
precisem cair por cima de mim. É apenas a minha experiência.
Outra
motivação é que, apesar de partilhar a mesma língua oficial com a Pérola do
Índico, continuas distante não apenas geograficamente, mas também nas relações.
Moçambique parece mais próximo de Angola, Portugal e Brasil do que do resto dos
países lusófonos. Quanto à ligação entre Moz e Cape, os teus filhos confirmam. Sempre
que um taxista ou qualquer cabo-verdiano se deparava comigo e notava que eu não
falava o crioulo, duas ou três perguntas me fazia, dependendo da minha resposta
inicial: a) És angolano? b) És guineense? c) És são-tomense? Nunca me perguntaram
se eu era moçambicano.
No
Museu do Tarrafal, quando apresentei o meu documento, ficaram boquiabertos. A
atendente acabou confessando que era a primeira vez dela a receber um
moçambicano. Sinal de que raramente um moçambicano passa por aqui. Mas isso é o
de menos.
Confesso
que ninguém pisa essas terras e volta com a alma vazia. O arquipélago anda com
o sol quase todos os dias, ventos quentes e paisagens áridas. Por isso,
brincando, os teus filhos costumam dizer que só têm uma única estação, o verão.
O
calor que cá se faz sentir não é apenas causado pelos factores geográficos,
climáticos e atmosféricos, mas também é causado pelos teus filhos mesmo, o
cabo-verdiano sabe receber o estrangeiro calorosamente. (Risos)
Para
mim, os teus filhos são hospitaleiros, alegres, cantores, dançarinos, amigáveis
e resilientes e acrescento, lindos.
Esse
“calor” é o que senti nos olhares, nos gestos, na música, na convivência. É um
calor do qual não se foge, porque atrai e abraça.
Ah,
quase me esquecia, parabéns por te qualificares para representar esse pedaço de
África! No dia anterior, a minha selecção (os Mambas) tinha encerrado esse
sonho, mas, no dia seguinte, nasceu uma nova esperança em ti.
És
muito pequeno, é difícil notá-lo no mapa; comparando a Moz, deves ser duzentos vezes
menor em extensão territorial. Mas irás disputar entre os melhores do mundo. No
stress ou então, Morabeza.
Não
deixei de apreciar o teu nível de patriotismo. No seu dia-a-dia, teus filhos te
carregam com orgulho. É notório até em eventos do Estado. Exalta-se a nação. Estou
a partir; mas participei em diversos eventos, académicos, culturais, literários e
alguns até de cunho mais diplomático, mas juro-te que não conheço nenhum nome
dos teus partidos, porque sempre o foco foi ´"nós cabo-verdianos."
Querido
Cabo Verde, não estás no top 10 dos mais ricos de África, mas também é bom
saber que não estás no top 10 dos mais pobres. Problemas todos têm, mas parece
que tu consegues te virar da melhor forma.
Sem
nenhuma base científica, arrisco dizer que exploras bem a economia azul. Tens
um uso sustentável dos recursos oceânicos e costeiros para promover o
crescimento económico. És um destino seguro e atrativo, com praias, uma cultura e gastronomia fortes, e clima favorável.
E
mais, consegues capitalizar a tua história, torna-la ponto turístico cada
detalhe teu do passado e do presente. Fazes o bom uso das tuas lindas praias;
investes no capital humano, e isso, nos últimos tempos, é poder. Parece que o
mundo tende a ser digital. Homem bem formado poderá dominá-lo.
Admiro
ainda a forma como te orgulhas da tua língua. Talvez seja por teres uma língua
local que une todas as tuas ilhas.
Mas,
como qualquer outro país, também tens desafios. Não te culpo, a dependência
externa se explica de diversas formas. Mas, se pudesses diversificar a economia,
não apostar apenas na economia azul, mas também em energias renováveis,
economia digital e empreendedorismo. Um dos caminhos é não criar fardos pesados
a quem deseja investir.
Seria
interessante se apostasses nos transportes inter-ilhas, para facilitar a
circulação de pessoas e produtos. Aparentemente, já tens uma base sólida,
estabilidade política, capital humano crescente, que pode sustentar um
crescimento inclusivo e sustentável, apesar das emigrações.
Querido
amigo Cabo Verde, não te vou roubar mais tempo. Eu me despeço, grato pelo acolhimento e na esperança de um dia.
Acredito
que, algum dia, num certo mês, num ano que eu e tu não sabemos qual, e por um motivo
qualquer, voltaremos a nos ver.
Levo
boas lembranças de ti. E para onde vou, falarei muito bem de ti, pois um pedaço
de mim fica por aqui, e eu levo um pedacinho de ti.
Atenciosamente,


7 Comentários
Até eu que nada viajei. Vi-me lá . Incrível ☺️
ResponderEliminarConsidere chegar lá um dia.
EliminarIncrível. Já tenho o sonho de conhecer Cabo Verde😌
ResponderEliminarÉ um sonho que vale a pena. Pode alimentá-lo.
EliminarParabéns escriba! Deu pra notar que tiveste uma impressão super positiva. 👏
ResponderEliminarGraças a Deus 🙏🏾
EliminarDois cabo-verdianos com os quais certa vez tive oportunidade de trocar conversa, fizeram-me ter água na boca em um dia poder visitar aquele "pedaço de terra no meio do mar" (risos), que de solidão nada tem. Hoje, através desta carta, percebo que não foram comentários sobre Cabo Verde movidos de nacionalismo "vazio", foram carregados de grande bagagem de construção de uma nação que, se um dia estiverem numa posição de intercambiar a cultura, terão muito a ensinar e, Moz, poderia ganhar grandemente.
ResponderEliminarMário Lucas (terceiro cabo verderdiano que tive oportunidade de o ouvir), numa conversa, fez-me perceber que Moz e Cabo Verde são certamente gêmeos, porque este ano fazem 50 anos de independência. O que em muitas coisas Moz e Cabo Verdade seriam mais próximos diferentemente da constatação do escritor, mas conforme o escritor na carta disse, não é o que sucede.
Tenho uma curiosidade: pelas perguntas sobre a sua nacionalidade, nenhuma se referia à Moçambique, justamente porque poucos moçambicanos visitam Cabo Verde: a questão é, por que os moçambicanos raramente visitam Cabo Verde? Se Moçambique pudesse investir nas relações bilaterais com Cabo Verde (o que certamente já acontece), o que Moçambique devia aproveitar mais para impulsionar o seu desenvolvimento?